segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

bailamos?

Daí que ontem eu saí com duas amigas argentinas e acabamos numa balada chamada HBN BCN (Habana Barcelona) pra dançar salsa.

Considerações engraçadas:

- maior concentraçã0 de mulheres vestindo calça branca por metro quadrado
- o único cara que me tirou pra dançar era o mais bêbado do lugar, media meio metro e tava com a braguilha aberta
- o mojito vinha sem soda, a justificativa do alcoolismo coletivo
- as negras não têm quadris, têm cartilagem, nunca vi mexer desse jeito, nem no Brasil
- a rainha da noite era um traveco possuído, Pablo Escobar ligou e pediu o meio quilo de volta
- a única música que eu cantei porque conhecia era de uma banda chamada Enanitos Verdes (Anõezinhos Verdes), acho que preciso ouvir mais salsa
- chegou um Europeu por lá e todo mundo ficou com dó e vergonha alheia da menina que ele tirou pra dançar

Outras considerações:

- alegria como válvula de escape é uma coisa impressionante
- todos se conhecem e são quase família, mas estão longe de ser um ghetto
- fazia tempo que não via tanta gente feliz junta, dava gosto
- a cantada da noite foi "que branca linda", mas até agora eu não sei se gostei muito (pelo branca e não pelo linda)

Considerações finais:

- latinos serão/seremos sempre latinos.
- sudacas serão/seremos sempre sudacas.

bravo.


"Estoy cantando pa mi gente
Esos que llaman emigrantes
Son personas comunes corrientes
Oye mi gente
Se lo canto a mi madre buena
Míralo que lindo suena"
Orishas

terça-feira, 11 de novembro de 2008

só uma curtinha

E aí que eu tava limpando o sangue falso do Halloween no banheiro do bar, quando entra um moleque de 20 anos pra fazer xixi. Faço um comentário qualquer sobre o sangue-hihi-haha-nossa-que-imundície e surge esse diálogo:

- Você é brasileira, né?
- Sabe que você é o primeiro que me fala assim de cara? A maioria pensa que eu sou mexicana.
- Ah... Eu também sou o primeiro a falar que você é linda?
- Claro que não...

Silêncio de morte, constrangedor, daqueles de cortar com a faca. O menino me olha fixo, com um sorriso amarelo no rosto.
Encaro ele e falo:

- Metida é a palavra que você está procurando. M-E-T-I-D-A.
- Hehe.

Saiu andando e não voltou nunca mais.

Tem culpa eu? :)

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Que Aproveche!

Outro dia eu fiquei pensando que no Brasil, quando sentamos à mesa, geralmente esperamos todo mundo se servir para comer. Claro que isso vai de família e tal, tem gente que espera e tem gente que nao tá nem aí, ou em outros casos espera na hora da salada (porque é frio) e nao espera na hora do macarrao (porque senao esfria).

Mas que eu me lembre, pelo menos na minha família (ou na minha roda de amigos), nós nunca falamos uns pros outros "BOM APETITE!" antes de começar a comer.

Se tem uma coisa que me irrita em grau moderado aqui, é o "Que aproveche!", que quer dizer "bom apetite", ou "aproveite a sua comida", entre tantas outras variáveis.

E o "que aproveche!" nao é utilizado só antes de começar a comer, senao a qualquer hora e qualquer momento, isso enquanto existir comida no seu prato. Basta qualquer ser humano se aproximar do seu espaço vital. Nao importa se ele te conhece ou nao.

Mas o grau moderado de irritaçao nem é por isso, senao porque a cada vez que uma pessoa pronuncia essas duas palavras, voce tem que responder "Gracias!". E se nao responde pega mal. Se você estiver de boca cheia, um aceno com a cabeça é válido, porque de certa forma é um agradecimento.

Mas se você nao responder nada, fica chato. E se a pessoa tiver intimidade com você, vai reclamar:

- Ow, eu falei "que aproveche!", viu?

Aí a coisa é engolir o bolovo sem mastigar, ficar com dor de estômago e com a garganta raspada, só pra responder:

- Sim, eu estava de boca cheia, mas eu acenei com a cabeça, entao isso quer dizer "obrigada!".

- Ah, ok, eu nao tinha visto.

Tinha um cara que eu conheci que era o cúmulo do "que aproveche!". Ele frequentava o café todos os dias, e ficava lá sentado sem fazer nada, só olhando. O problema é que ele conhecia metade das pessoas, entao qualquer um que chegasse pra comer, ele ficava gritando pelo nome, mil vezes, até a pessoa olhar e ele falar:

- Que aproveche!

Nisso a pessoa ficava puta por ter sido tirada do sossego e nao aproveitava mais nada.

Começo aqui uma campanha pelo fim do "Que aproveche!".
E nunca mais almoçaremos com essa cara:



- Já aderi!

sábado, 27 de setembro de 2008

Hein?

Cara, eu tô ficando burra. É sério. E é trágico.

Desde que comecei a trabalhar como garçonete, sempre pensei na labuta como uma "experiência antropológica", então eu me dava ao trabalho de prestar atenção na conversa alheia ou simplesmente me dispunha a ouvir quem viesse contar alguma coisa pra mim. Tipos, balcão do bar é aquela coisa Reginaldo Rossi mesmo, e a quantidade de gente que já se abriu pra mim sem nem sequer saber meu nome é infinita.

Já ouvi coisas interessantes, mas pra falar a verdade... Nesses dois anos atuando como confessionário, 99% das coisas que me contaram foram assuntos completamente inúteis.

Não queria desviar do assunto sobre a minha burrice, mas é impossível não citar Mari Carmem quando falo dos 99%. Porque ela é responsável por 99% dos 99% total, se meu professor de Estatística da faculdade, Sr. Omir, me permite.

A mulher chegava no café todo dia às 8h00 em ponto (eu abria às 7h30 da manhã!), pra comer um croissant e um café com leite "bem quente!" no copo e sem espuma. Antes de ela arrumar uma amiga no trabalho e me deixar em paz, essa que vos escreve era vítima de sua diarréia mental.

Todos os dias, simplesmente T-O-D-O-S-O-S-D-I-A-S ela comentava sobre o tempo e me dava conselhos metereológicos de acordo com a dor de sua joanete no pé direito. Se doía era porque ia chover, então "Tatiana, não esquece seu guarda chuva amanhã!" e se parasse de doer a joanete não precisava mais levar guarda chuva porque não ia chover.

Aí o assunto seguinte era o Fernando Alonso, "campeón!", e o resultados da Fórmula 1. Na boa, depois que o Senna morreu, quem liga pra Fórmula 1?

E finalmente, o terceiro assunto era aleatório, ela ia no arquivo cerebral MariCarmem.doc e desenterrava uma história esdrúxula pra me contar. E falava non-stop:

"Aí eu encontrei uma conhecida minha no ônibus e ela estava com uma bolsa lindíssima, mas quando eu falo lindíssima você não tem idéia, porque era lindíssima mesmo, o corte era tipo uma meia lua, era toda estampada e com a alça feita de madeira, e dentro dela vem uma canga de praia que é da mesma estampa da bolsa, feita pra combinar mesmo, blá blá blá."

Ou então:

"Aí que esse final de semana eu fui na cidade da minha cunhada e eles começaram a jogar cartas e eu não gosto muito de cartas sabe, mas no final das contas me convenceram e eu fui jogar, então é assim, se você junta dez cartas faz dez PONTO, se junta vinte faz vinte PONTO, se junta trinta faz trinta PONTO, se junta quarenta faz quarenta PONTO e se junta cinquenta faz cinquenta PONTO, é muito divertido, eu fiquei horas jogando, blá blá blá".

Meu, no começo eu até achava engraçadas as histórias da louca Mari Carmem, mas depois de um mês eu simplesmente queria assassiná-la com xicaradas na cabeça, repetindo:

"Quando é mais de um PONTO, se diz pontoS, Mari Carmem! PontoS! PontoS! Com S, ÉSSE, SSSSS!!"

Não teve jeito, eu comecei a inventar desculpas esfarrapadas pra sair e deixar ela falando sozinha, do tipo "Vou ali lavar tomates na cozinha, se precisar de alguma coisa me chama, tá?" e ela ficava com cara de cachorro perdido me olhando de longe. No começo eu até ficava com peso na consciência, mas depois de um tempo eu não fazia nem mais questão de inventar nada, eu simplesmente saía andando e deixava ela sozinha no monólogo sem noção de cada dia.

Mas enfim, voltando pra minha burrice.

O negócio é o seguinte: eu não tô nem aí. Não me importa se falta pão, não me importa se falta café, não me importa aprender a fazer espuma com o leite, não me importa se o o sorvete derreteu. Acontece que eu trabalho com pessoas que ESTUDARAM pra isso. Ou com pessoas que só fazem isso, fizeram isso a vida inteira e nunca tentaram trabalhar com qualquer outra coisa. Então o tema das conversas é sempre, SEMPRE o mesmo:

"Nossa, você não sabe, veio um cliente e pediu a pizza Rodeo, aí eu fui pegar e não tinha! Imagina, quase caiu minha cara de vergonha!", ou "Ai, eu sempre experimento o atum antes de colocar no sanduíche dos clientes, porque é melhor eu passar mal do que um cliente se intoxicar."

QUÊ???

Você acha que EU vou me intoxicar por causa de um fulano que eu nunca vi na vida? Todo mundo sabe que atum não se come na rua (eu aprendi isso há uns cinco meses, quando me intoxiquei e fiquei com manchas vermelhas na cara, braços e peito, e a moça da farmácia falou que eu era louca de não ter ido direto pro hospital), então experimentar atum dos outros é o cara***!!!

(Abre parênteses): Essa menina que experimenta o atum antes era muito gente fina, e agora que o chefe deu voto de confiança para ela ficar sozinha durante a tarde, ela meio que ficou se achando a dona e subiu por conta própria 0,10€ de qualquer coisa. Tipos, um dia o bar bombou de gente e o chefe foi lá ajudá-la, aí um cliente virou pra ELE e falou "Fecha a conta" ou coisa que o valha, e quando o boss marcou 1,60€ na caixa registradora, a menina do atum virou e falou “Não, você cobrou errado, não é 1,60€ a cerveja, e sim 1,70€”. Imagino que ele deva ter ficado com a cara mais de cu de todo o universo, e me parece que o estado de choque foi tanto que ele nem conseguiu falar nada, cancelou o 1,60€ e marcou 1,70€.
Cara, a sua funcionária sobe os preços do seu bar? E quando ele tava de férias então? Ela pegou a lousinha de preços e mudou tudo! Sem ele saber! E o pior é que ela cobra as coisas mais caras e não fica com a mais valia! Ela bota no caixa! Vai entender esse mundo...
(Fecha parênteses)

Mas então, a minha burrice. Basta de desvios.

Tipo, você começa a notar que está ficando burra quando já conhece a cara de mais ou menos umas 70 pessoas, e dessas, umas 30 você chama pelo nome.

Tem coisa mais estúpida que isso? O lugar que esses nomes ocupam no meu cérebro poderia muito bem ser ocupado por um poema de García Lorca, ou um trecho de um livro que eu gostei de ter lido, ou o momento exato de um pôr do sol, ou qualquer coisa hippie brega dessas que eu gosto. Mas não! Eu sei quem é o Pepe, o Hermínio, o Juanito, o Martin, o Fran, a Silvia, a Marina, a Patri, etc.

Aí tem os apelidos que a gente põe, de acordo com o que a pessoa consome. Tem a Laura café com leite e canela, o David sanduba de presunto, Francesc do café sem açúcar e o Venáncio do descafeinado de envelopinho. Quando rolam nomes iguais o esquema é o mesmo. Se meu colega de trabalho fala pra mim "O Juan veio aqui hoje" eu tenho que perguntar "Qual Juan? O Juan cerveja ou o Juan suco de laranja natural?". Aí meu companheiro responde pela bebida e eu sei de qual Juan se trata.

Um outro sintoma de que estou ficando burra é que o meu senso de humor anda um pouco alterado. Outro dia eu CHOREI de rir de não sei o quê do sanduíche de frango que eu não lembro (olha que engraçadíssimo, eu nem lembro), mas sei que quando parei de rir eu quase chorei de tristeza, porque nunca na minha vida um sanduíche de frango tinha feito com que eu perdesse as estribeiras e a noção do ridículo, e quando lágrimas escorrem dos seus olhos depois do ataque histérico de riso você pára pra rever os seus conceitos e se pergunta se está tudo bem ou se você tá ficando burra e/ou louca. E obviamente é a primeira opção.

Aí eu penso que o mundo é injusto e só porque eu nasci do outro lado do Atlântico eu sou fadada a ser garçonete até que o governo espanhol resolva que eu sou uma cidadã contribuinte com a engrenagem que gira o capital e me dê um número de Seguridad Social decente pra eu fazer o que eu bem entender. Suspiro.

Puxa vida, nada contra quem gosta de ser garçom, muito pelo contrário, se você gosta do seu trabalho, realmente existe amor, carinho e sucesso em abrir uma garrafa de vinho com toda a pompa e circunstância. Mas cara, eu sou antropóloga, sabe? No me importa! I don´t care! E acho que não tem nada de mal nisso!

E pra completar o bizarro world, eu tenho que ouvir coisas do tipo:

"Poxa, eu conheço um fulano que ganha a maior grana com isso, ele se especializou nessa coisa de limpar ossos com a escova de dentes, é quase o Indiana Jones"
"Que eu saiba, o Indiana Jones é arqueólogo, não antropólogo..."
"Ah, mas então, o que faz um antropólogo? Eu achava que era a mesma coisa!"

E digo mais: Experiência antropológica no bar é o cacete, esse povo me deixa louca do cérebro! Me comparar com o Indy?

Cara, se eu tivesse direitos europeus ilimitados eu faria uma reforma educacional. Juro que faria.

sábado, 6 de setembro de 2008

Subindo o Canigou

E daí que chamaram a gente pra subir o Canigou, uma famosa montanha do Pirineu, localizada no sul da França. Tal evento foi agraciado com o nome de "La Trobada" que significa "O Encontro" em catalão.
Explico: a coisa resume-se em juntar os catalães dos dois lados (francês e espanhol), subir o morro, cantar cantigas típicas pelo caminho, dançar a Sardana (uma dança que também é típica, tipo uma "Tarantella" com menos emoção) e acampar lá em cima, no pico.

Então Julien e eu resolvemos ir. O namo investiu uma puta grana com barraca, sleeping bag, isolante térmico, panelinha, colherzinha, garfinho, canequinha, bujãozinho e todos os inhos possíveis pro nosso conforto e rumamos pro lado de lá da fronteira.

As risadas do começo da viagem ficaram por conta do Carl, um canadense de Montreal residente em Barna, que agora mora com duas brasileiras. O camarada veio falando portunhol o caminho inteiro e inventando palavras. Tipos, na metade do caminho eu tava titubeando entre homicídio ou suicídio. No fim todos sobrevivemos.

Dormimos na casa de um amigo do Mika (amigo do Julien) e no dia seguinte rumamos pro morro. Já estávamos em pleno verão, mas naquela porra de França sempre faz frio e eu nunca estou realmente preparada pros cambios climáticos.

Quando chegamos no ponto de encontro no pé da montanha, GERAL tinha amarrado mochilas nos burros que estavam lá pra alugar. Tipos que você vai subir o morro e não vai se esforçar NADA? Que classe de aventureiro é você?

Julien e eu chegamos à conclusão de não alugar burro porra nenhuma, e sim uma mula simbólica, só pra levar os sacos de dormir, porque o pônei-mula não aguentaria nem a nossa mochila. Belezera.

Ah, esqueci de falar que o burro é o símbolo da Catalunha. Maior galera vestia camisetas com os dizeres:

BURRO CATALÀ, LA VOITURE DE DEMÀ
BURRO CATALÃO, O CARRO DE AMANHÃ

Nem vou comentar a piada pronta.

(Curiosidade: "Voiture" significa "carro" em francês e em catalão, só muda a pronunciação. Mas do lado de cá (Espanha), a palavra "carro" em catalão se traduz como "cotxe".)

Aí depois de muita enrolação começamos a subir uma estrada de cimento. No começo eu até achei normal, mas depois de uma hora de caminhada eu comecei a ficar indignada. Num era trilha o bagulho? E os insetos? Borboletas? Coelhinhos? Cachoeiras? Onde tava tudo isso?

E o frio ia aumentando...

Aí de repente mudamos pra uma estrada de terra. Menos mal, porque aí eu continuei indignada, mas não muito. Continuei subindo, enquanto o Julien dava uns tapas na bunda da mula pra ver se ela andava e parava de comer capim.

De repente um monte de gente começa a passar a cavalo. E depois com bicicletas. E depois de carro!

Perguntei pro Juls:

- Ow, mas dá pra chegar de carro até lá?

E ele:

- Dá!

Mano! Mulas somos nós que não desembolsamos 5 conto a mais pra pegar um burro decente que levasse as nossas coisas! Mah que merda!

Depois de tantas horas fizemos uma paradinha pra comer um sanduba. Pão amanhecido com queijo suado.


Esse aí atrás é o Carl canadense.

Aí um tiozão catalão saca o violão e começa a tocar uma canção (rima pobre é o cara***).

Carl canadense vira pra mim e fala:

- Nossa, cansei de escutar essa música no ano passado.

Num entendi nada da música. Eu até entendo o catalão falado em Barça, mas com sotaque francês já é pedir demais. Bateu uma saudade da minha terra, onde todo mundo fala igual.

Depois dos aplausos pra música do tiozão, botamos o pé na estrada de novo. Até lá a viagem tava menos emocionante que qualquer música do Frejat, então imagina.

Sei que o tempo começou a fechar feio. Neblina total. Vento veloz. Frio ducaraio. Mas continuamos subindo, enquanto eu pensava:

- Poxa, e eu que trouxe o biquíni pra nadar na nascente da montanha...

Útima parada antes do pico da neblina: uma casinha abandonada. O momento ideal pra dançar a Sardana.

Junta a negada toda e faz um círculo de mãos dadas. Aí o tiozão do violão começa a explicar que a Sardana espanhola é assim e a francesa é assado. Olho a expressão das pessoas e fico me perguntando se alguém tinha entendido o que o cara tinha falado. Carl canadense vira pra mim e diz:

- Eles dançaram no mesmo lugar no ano passado.

Tenho a sensação de dè ja vu.

Uma hora depois, chegamos no pico e fomos montar as barracas.

Cara, nem te conto o FRIO DEMONÍACO que fazia em cima daquela montanha. Eu tava inconformada de ter esperado o verão o ano todo e quando tenho um final de semana livre pra curtir a praia, resolvo subir a montanha pra ver neve.

Barracas montadas, decidimos ir beber uma breja no bar/chalé que tinha ali do lado. Sim, lá nos confins do Canigou existe um bar/chalé/restaurante. Aventura mil.

No meio do caminho a neblina começa a baixar mais. E mais. E mais. Olho pra frente e não consigo enxergar meu namorado. Me entra um pânico e começo a gritar:

- Julieeeeeeeeeeeeeeen! Julieeeeeeeeeeeeen! Julieeeeeeeeeeeeeen!

Sai o menino detrás da cortina de fumaça, puto com o meu escândalo. E eu fiquei mais puta por ele ter me abandonado perdida no mato e ainda ter ficado bravo.

Quando sentamos no bar, resolvi registrar a fantástica beleza do Canigou.


Adorei a vista

Cara. Tava tão frio mas tão frio que deixei a dignidade guardada na barraca e coloquei em cima de mim toda e qualquer coisa que fizesse parar o arrepio. Umas três meias (o cadarço do meu tênis nem amarrava), meia calça, calça legging, calça jeans (não fechava o botão), todas as blusas de frio que encontrei e por cima de tudo isso uma capa de chuva. Não, não tava chovendo, mas e daí? Acho chique a prevenção. Tatiana Diniz era o símbolo da feminilidade no Canigou.

Quando chegamos no bar, descobrimos que só tinha mesa do lado de fora. Meu humor começou a descer pro tornozelo.



No calor do verão europeu.


A noite caiu, a fogueira acendeu, o vinho misturou com rum Pujol, o frio piorou e antes de ter um ataque psicótico resolvi voltar pra barraca e dormir. Se o Julien não tivesse me acompanhado com larterna + sentido de direção, teria morrido congelada e solitária no meio das árvores.

Nem preciso dizer que dormi com todas as roupas dentro do sleeping, e ainda coloquei a mochila em cima de mim pra ficar mais quentinho.

Acordo no dia seguinte e vejo a galera desmontando tudo. Fico paralisada olhando. Pergunto pra um cara:

- A gente JÁ vai embora?

E o amigo diz:

- Claro! A que horas você queria ir?

Arrumamos tudo na correria e chegamos na cidade depois de várias horas. As cãimbras já davam sinal de que os próximos dias não seriam fáceis.

A única coisa que eu gostei realmente foi que na descida eu comi várias cerejas que caíam das árvores que cercavam a estrada. (Claro que a coisa mais legal sempre é comida...)

Na volta pra Barça, dentro do carro e quentinha, Carl canadense pergunta:

- E aí, gostou?
- Sim, claro!
- Ano que vem você volta?
- Errrr Carl! Claro que não!


I love Canigou

domingo, 13 de julho de 2008

aquilo na mao


Cara, tô há muito tempo sem atualizar isso, e juro... tenho várias histórias novas e ilustradas.

Mas como ACABEI de mudar de casa e ainda nao encontro NADA por aqui, escrevo uma rapidinha que aconteceu hoje.

Bom, como já mencionei antes, tô num lar novo... entao hoje meu namorado e eu fomos comprar coisinhas numa loja chamada Ikea, que é tipo uma Expo Center Norte mega master de móveis e artigos do lar, muito da bem feita pra você virar um louco consumista. Tipos, pra comprar um edredon, qualquer pessoa tem que passar antes pela seçao de sofás, almofadas, copos, velas, talheres, luminárias, fronhas, toalhas, etc. Nunca ninguém sai de lá sem nada na mao.

Pra chegar da minha casa até o local, tenho que pegar um metrô, fazer baldeaçao, sair do metrô e pegar um ônibus. E lá fomos nós com o caderninho na mao com as coisas anotadas pra comprar. Quer dizer, na lista só tinha a cortina do chuveiro. O resto a gente ia ver.

Entramos no metrô amarelo e fomos até a estaçao Urquinaona pra fazer a baldeaçao pra linha vermelha. Ao subir as escadas, minha sandália escapou do pé e fez com que eu tropeçasse no degrau. Pra nao cair espatifada no chao que nem uma gorda-baleia-saco-de-areia, apoiei na primeira coisa que eu vi na frente. E como eu tava caindo, eu apoiei com força, pra me segurar. E a primeira coisa que eu vi na frente foi a bunda de um cara.

Julien ficou tentando me levantar, nao porque eu tinha caído realmente, mas sim porque eu tava sem forças pra subir os degraus, de tanto rir. Como se nao bastasse a palhaçada toda, escuto o cara comentar com o amigo, em portuguêm beeeeem paulistano:

- Porra cara, a mina deu uma cabeçada na minha bunda!

Aí eu:

- Ow véio, num foi cabeçada, foi a mao mesmo. Mal aê.

Aí o cara:

- Ah, foi a mao? Entao beleza!

Como se isso mudasse tudo!

Nem conseguia olhar pra frente de tanta vergonha. Aí o Julien solta:

- Sei lá viu, Tati, mas acho que ele gostou. Nao parou de sorrir até agora.

Ah, tenha dó, né?

Vem fazer fom fom

segunda-feira, 7 de abril de 2008

um ano de namoro à la Jack

E daí que meu namorado e eu fizemos um ano de namoro e queríamos comemorar num restaurante melhorzinho e tal, e perguntei pro meu chefe onde eu poderia ir.


Sem nem pensar, ele falou:


- Já que você come peixe, tem que ir no restaurante La Fitora, do lado do Porto Olímpico e pedir um caldoso de bogavante. Pede uma mesa do lado de cima, porque tem vista pro mar. Vai sair meio caro, mas tem que ser esse. Se você quiser, eu até te faço um espréstimo. Ah, peça vinho branco. Quando eu fui com a Lourdes, minha namorada, ela pediu um tupperware pra levar o que sobrou pra casa, entao imagina!


Fiquei com uma cara de "méééo como assim" e já mandei um SMS pro Julien:


"Temos restaurante, comida e vinho, já era".


Liguei pro restaurante e reservei mesa pras 21h00. E lá fomos nós, com uma roupa casual-chic jantar no Porto Olímpico.


Durante todo o trajeto ele me perguntou que raios a gente ia comer, e eu fazendo surpresa. Aí fizemos uma brincadeira de que se ele adivinhasse, eu contaria o que era.


Mas... mal sabia ele que eu nao tinha A MENOR IDÉIA do que poderia ser um bogavante. Até o momento eu pensava que era um peixe mais estiloso.


Chegamos no recinto, mór chique. Nao sei se dá pra ver direito, mas olha a vista pro mar:











Sentamos e nem olhei o menu. Falei pro garçom:


- Recomendaram um caldoso...


- ... de bogavante. Certo. É a nossa especialidade. 20 minutos, ok?


- Ok.


Atrás de nós estava sentado um casal com uma bandeja enorme de frutos do mar. Era imenso o prato, e todos os animais que compunham a cena estavam cozidos inteiros, com olhos, cabeça, patinhas, tudo. Aí comentei com o namo:


- Entao, eu até como frutos do mar, mas eu nao poderia comer um troço desses. Nao tem como você olhar nos olhos de animal e depois enfiar o garfo nele, sabe?


Volta o garçom com os talheres, e coloca isso na mesa:





Sim, todos esses talheres sao meus. Lembrei do Dr. Máximo, o dentista que tirou o meu ciso. Acho que ele utilizou menos ferramentas no dia da extraçao.

Comecei a ficar branca, suada e gelada. Julien colocou mais vinho no meu copo. Até que saiu a pergunta:

- Mas Tati, o que é um bogavante?

- Nao sei!!!!!!!!!!! Ai meu deus!!!!! Nao sei!!!! E agora????? E se vier com olhos????

- Você nao sabe o que a gente vai comer?

- Nao, meu! Meu chefe recomendou, e como ele cozinha bem, nem perguntei nada, ele falou que era um peixe, sei lá eu!

- Hahah.....

- Pára de rir! Poe mais vinho aí, vai....

E chega o garçom. Sabe o que é um bogavante?

É uma lagosta imensa, geneticamente modificada e criada pelos nutricionistas do McDonalds. Tipo a lagosta do lago Ness. Tipo, meu deus.

Depois de servidos os pratos, Julien me diz:

- Como faz?

- Nao me diga que os instrumentos de tortura sao pra tirar a carne de dentro do bicho.

- Vamos ver.

Segura o tronco da lagosta com o negócio que parece um quebra nozes e entuxa o garfinho com dois dentes dentro dela. De lá tira uma carninha cor de rosa. Se liga no prato:





Sinto uma gota de suor descer ao lado da minha orelha. Digo:

- Vou mandar um SMS xingando o meu chefe.

- (depois de provar o bogavante) Hummm, que bom! Nao vai mandar mensagem nao! Prova!

Provei.

E nao é que era bom, mesmo? Só que gente, vamo combinar. Fazer o Jack Estripador nao dá.

E o Julien falava pra mim:

- Pensa como se fosse uma brincadeira, nao é um bicho, blá blá blá.

Sei que no fim das contas, peguei leve com o animal e nao o destruí inteiro. Passei minha parte do namo e comi o caldo com arroz. Bem melhor.

Agora a foto do necrotério:






O que sobrou do bogavante.



Primeira e última. Juro.

E ah, sim, pedimos um tupperware.





terça-feira, 1 de abril de 2008

da arte de fazer merda

Nao sei cozinhar. É isso. Prontofalei.
Aí olha o que acontece quando eu me atrevo:

Desde que eu mudei pra Barça (e antes também) criei um histórico de dedos cortados, comida no lixo, coisas esfumaçadas, líquidos derramados e pele (e pêlos) queimados.
Teve até uma vez que o Joan, namorado da Rê, veio com um band-aid na cozinha porque sabia que eu tava cortando tomates, e falou:

- Ó, em caso de você se cortar...

E nao é que eu me cortei? Mas enfim... vamos ao que interessa.
O histórico de tragédias no trabalho.

- Da arte de queimar "bikinis"

Pra quem nao sabe, bikini aqui é um sanduba tipo bauru, só que sem tomate. Presunto, queijo e é nóis.
E nao sei o porquê do motivo, mas TODA vez que me mandam fazer um maldito bikini, eu o esqueço na tostadeira. Nao é mentira.
Nem todas as vezes os sanduíches saíram queimados, mas sim, todas as vezes eles ficaram dentro de um mini-forninho quente, até que alguém os tirasse de lá.

A primeira vez que eu esqueci um bikini tostando foi bastante traumática. Tinha acabado de começar a trabalhar na cafeteria de um clube aqui perto de casa, e meu chefe na época mandou eu fazer o tal sanduba pra nao sei quem. Ele falou:

- Fica de olho, tá?

E eu:

- Tá.

Um segundo depois da resposta eu tinha esquecido totalmente a porcaria do bikini.
Meia hora depois, estava eu varrendo o chao e entra o chefe correndo. Quando olho pra onde ele tava indo, vejo o cogumelo de fumaça à la Hiroshima que tomava conta do local. Fiquei de boca aberta, com a vassoura na mao, pensando que talvez eu pudesse sair voando com ela se dissesse uma palavra cabalística. Mas nao rolou.

Aí ele colocou outro pao dentro da máquina. Falou de novo:

- Tati, pára de pedir desculpas, nao tem problema, mas dessa vez fica de olho mesmo, tá?

- Tá.

Aí eu esqueci de novo! Têm noçao?

Volta o chefe depois de meia hora DE NOVO correndo pra salvar o restaurante. Sorte que eu tava lá fora essa hora. Quando ele veio falar o que tinha acontecido, perguntei:

- Você vai me mandar embora hoje mesmo?

Ele riu porque tinha bom humor naquela época. Depois me mandou embora de verdade.

- Da arte de fritar bacon

Hoje em dia eu trabalho num bar chamado Café Ibiza, que eu amo. O chefe é o ser humano mais legal do mundo, cozinha horrores, faz pratos multicoloridos de verduras pra mim, faz café com Baileys e chantilly, compra tomates de cores diferentes pra eu provar e até traz manga pra eu matar a saudade da minha terra. É inacreditável.

Aí teve um dia que ele nao podia cozinhar porque tinha que resolver X´s assuntos. E me pediu pra fazer um sanduba de bacon.

Cacete, mano. Eu, peixetariana que sou, cortando bacon, lombo, frango, salsicha, fuet, linguiça, morcilla (um bagulho com sangue) e hambúrguer nao dá. Fico com o braço arrepiado 100% do tempo.

Beleza, botei o bacon pra chapa, fez tchhhhhh e veio toda a fumaça no meu cabelo. Pensei:

- Ah, como é porco, deve ficar na chapa o maior tempao, vai que rola uma taenia solium, né?

Sei que 10 minutos depois eu tirei o micro-carvao de porco que tinha sobrado da fritada e fiz disso um sanduba.

Levei pro bróder que tava lá fora.
Desejei bom apetite, aquela coisa toda.
Na hora de recolher o prato, perguntei:

- Tava bom?

Aí ele nao falou nada. Ficou olhando pro horizonte, fingindo que nao tinha escutado.

Depois disso, perguntei pro boss:

- Juanjo, quanto tempo é pra deixar o bacon na chapa?
- Ah, uns 20 segundos de cada lado...

Gente, fiquei bege. Coitado do cara, mano. Devia ter reclamado, né? Sei lá eu.

- Da arte de cortar finas fatias

Lá no Ibiza tem aquele cortador de frios de padaria, e eu tenho que usá-lo. MOR-RO de medo.
Até descobrir que existe uma luva de ferro, que é pra nao cortar uma fatia do dedo, rolava uma paúra-mór.
Antes da luva mágica, eu nao sabia muito bem o nível de grossura pra cortar um "jamón serrano", por exemplo. Jamón serrano é aquela pata inteira do porco, defumada (?), com pé e tudo. E as primeiras vezes que tive que pegar meia pata nojenta do porquinho óinc-óinc morto, entrei em pânico. Cortei um belo bife e enfei no meio do pao. Ainda bem que era pra um dos chefes.

- Tati, agradeço a sua generosidade, mas nao consigo mastigar.

- Da arte de espirrar leite na cara

- Oi, por favor, eu quero um capuccino.
- Tá.

Vem o chefe.

- Tati, você sabe fazer espuma com o leite?
- Hehe.
- Entao, tem que esquentar com esse negócio, assim assado, ó.
- Ah, beleza.

O "negócio" em questao é um tubo de metal que sai um vapor fervendo. E pra fazer a porcaria da espuma, tem que colocar o vapor na borda do leite que fica dentro uma leiteira de alumínio. O barulho do vapor saindo do tubo é ensurdecedor. (Nao sei se tô explicando direito, mas enfim).

Aí eu fui ver como tava a espuma. Abaixei um pouquinhozinho a leiteira, e o tubo de vapor saiu de dentro do leite. Essa açao fez com que o vapor soprasse o ar, que soprou o leite, que voou na minha cara.
Fiquei com os cílios grudados e com gotas brancas no nariz, e meu chefe assumiu o comando enquanto eu fui lavar a cara no banheiro.

- Da arte de levar choque

Acontece assim:

Se eu estou com a mao na torneira e encosto na cafeteira, levo um choque.
Se eu estou com a mao na cafeteira e apóio na base de ferro, levo um choque.
Se eu estou com a mao na lavadora de copos e encosto na pia, levo um choque.
Se estou parada na minha sem fazer porra nenhuma, levo um choque.


Outro dia assinei um papel sobre segurança no trabalho. Vou fazer um curso na semana que vem.

É sério.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

anedotas no metrô

Estava eu cansada bagaraio voltando de mais uma frustrada tentativa de achar um apê nessa cidade, quando percebo entrar no metrô uma menininha loira com sua mae.

Logo após o fechamento das portas, a menininha doida começa a gritar junto com o alto falante, anunciando as próximas estaçoes.

Alto falante dizia:

Pròxima estació: Hospital Clinic

E a loirinha gritava:

HospitAAAAAAl ClinÍÍÍÍÍÍÍÍc

Eu até tava achando engraçado, porque o povo ao redor começou a ficar puto com a menina. Nunca vi gente tao sem senso de humor nessa vida.

Aí uma hora ela para e fala pra mae:

- Mae, tá com cheiro de peidinho!
(Isso mesmo. PEIDINHO. Querem o original? PEDITO!)

Aí a mae responde:

- Nossa! Você soltou um peidinho?
(Achei o máximo, a mae nem deu bronca.)

Aí a menina devolve:

- Nao! Foi ele!!!!

E aponta pro bróder que tava do lado, escutando um som.

Precisa falar que eu gargalhei sem respeito? E que o povo do lado também? E que o moço ficou com cara de traga-me terra?

Bem feito! Acho mancadíssima peidar do lado de criança! Fica tudo na altura da cara delas, gente! É tipo vir alguém e colocar a bunda bem no seu nariz.

Nota 10 pra menininha. Adoro!

terça-feira, 20 de novembro de 2007

anedotas by night - parte dois

Cena da noite:

Tatê com os braços cruzados atrás do balcão, esperando algum bêbado fazer o seu pedido. Do lado de lá, um gordinho maluco tramando alguma coisa. Até aquela hora não tinha descoberto o quê, mas que ele tava tramando, ah, isso sim.

Reparo no ser humano. Cara de bobão e barriga de bola de basquete. Falo mal mesmo!

Chega o sambado e diz:

- Me dá uma vodca com gelo?
- Nós temos 2x1 (um happy hour) até às 2h da manhã, se você quiser duas vodcas, paga o preço de uma.
- Tá. Dá duas.

Coloquei duas Absoluts on the rocks. O cara pegou um copo e passou todo o líquido pro outro. Minha visão era um copo em forma de tubo cheio até a boca de vodca pura com dois gelos. Como se um anjo soprasse em meu ouvido, continuei olhando pro gordinho pra ver o que ele ia fazer.

Pois vejam vocês... superando todas as minhas expectativas, ele tascou um canudinho no copo e sugou a bebida inteira como se fosse um Toddynho.

Meus olhos arregalaram tanto que eu fiquei com mais rugas na testa. Chamei um amigo meu de canto e comentei a história. Quando terminei o relato, ouvimos um barulho de saco de cimento caindo no chão. E olha que a música lá é beeeem alta.

Olho e vejo o menino estatelado com a cara virada pro chão, com três pessoas tentando levantá-lo. Meu amigo pergunta:

- É aquele lá????
- Noooooossa, é ele!

Deu um arrepio na coluna em pensar que ele poderia ter quebrado o nariz, ou desmaiado, ou sei lá eu. Quando se cai de cara, geralmente acontece isso, né?

Mas pra nossa alegria, nem aconteceu nada. Depois de muito esforço, arrastaram o menino pra fora, e ele nunca mais foi visto nessas bandas.