sábado, 27 de setembro de 2008

Hein?

Cara, eu tô ficando burra. É sério. E é trágico.

Desde que comecei a trabalhar como garçonete, sempre pensei na labuta como uma "experiência antropológica", então eu me dava ao trabalho de prestar atenção na conversa alheia ou simplesmente me dispunha a ouvir quem viesse contar alguma coisa pra mim. Tipos, balcão do bar é aquela coisa Reginaldo Rossi mesmo, e a quantidade de gente que já se abriu pra mim sem nem sequer saber meu nome é infinita.

Já ouvi coisas interessantes, mas pra falar a verdade... Nesses dois anos atuando como confessionário, 99% das coisas que me contaram foram assuntos completamente inúteis.

Não queria desviar do assunto sobre a minha burrice, mas é impossível não citar Mari Carmem quando falo dos 99%. Porque ela é responsável por 99% dos 99% total, se meu professor de Estatística da faculdade, Sr. Omir, me permite.

A mulher chegava no café todo dia às 8h00 em ponto (eu abria às 7h30 da manhã!), pra comer um croissant e um café com leite "bem quente!" no copo e sem espuma. Antes de ela arrumar uma amiga no trabalho e me deixar em paz, essa que vos escreve era vítima de sua diarréia mental.

Todos os dias, simplesmente T-O-D-O-S-O-S-D-I-A-S ela comentava sobre o tempo e me dava conselhos metereológicos de acordo com a dor de sua joanete no pé direito. Se doía era porque ia chover, então "Tatiana, não esquece seu guarda chuva amanhã!" e se parasse de doer a joanete não precisava mais levar guarda chuva porque não ia chover.

Aí o assunto seguinte era o Fernando Alonso, "campeón!", e o resultados da Fórmula 1. Na boa, depois que o Senna morreu, quem liga pra Fórmula 1?

E finalmente, o terceiro assunto era aleatório, ela ia no arquivo cerebral MariCarmem.doc e desenterrava uma história esdrúxula pra me contar. E falava non-stop:

"Aí eu encontrei uma conhecida minha no ônibus e ela estava com uma bolsa lindíssima, mas quando eu falo lindíssima você não tem idéia, porque era lindíssima mesmo, o corte era tipo uma meia lua, era toda estampada e com a alça feita de madeira, e dentro dela vem uma canga de praia que é da mesma estampa da bolsa, feita pra combinar mesmo, blá blá blá."

Ou então:

"Aí que esse final de semana eu fui na cidade da minha cunhada e eles começaram a jogar cartas e eu não gosto muito de cartas sabe, mas no final das contas me convenceram e eu fui jogar, então é assim, se você junta dez cartas faz dez PONTO, se junta vinte faz vinte PONTO, se junta trinta faz trinta PONTO, se junta quarenta faz quarenta PONTO e se junta cinquenta faz cinquenta PONTO, é muito divertido, eu fiquei horas jogando, blá blá blá".

Meu, no começo eu até achava engraçadas as histórias da louca Mari Carmem, mas depois de um mês eu simplesmente queria assassiná-la com xicaradas na cabeça, repetindo:

"Quando é mais de um PONTO, se diz pontoS, Mari Carmem! PontoS! PontoS! Com S, ÉSSE, SSSSS!!"

Não teve jeito, eu comecei a inventar desculpas esfarrapadas pra sair e deixar ela falando sozinha, do tipo "Vou ali lavar tomates na cozinha, se precisar de alguma coisa me chama, tá?" e ela ficava com cara de cachorro perdido me olhando de longe. No começo eu até ficava com peso na consciência, mas depois de um tempo eu não fazia nem mais questão de inventar nada, eu simplesmente saía andando e deixava ela sozinha no monólogo sem noção de cada dia.

Mas enfim, voltando pra minha burrice.

O negócio é o seguinte: eu não tô nem aí. Não me importa se falta pão, não me importa se falta café, não me importa aprender a fazer espuma com o leite, não me importa se o o sorvete derreteu. Acontece que eu trabalho com pessoas que ESTUDARAM pra isso. Ou com pessoas que só fazem isso, fizeram isso a vida inteira e nunca tentaram trabalhar com qualquer outra coisa. Então o tema das conversas é sempre, SEMPRE o mesmo:

"Nossa, você não sabe, veio um cliente e pediu a pizza Rodeo, aí eu fui pegar e não tinha! Imagina, quase caiu minha cara de vergonha!", ou "Ai, eu sempre experimento o atum antes de colocar no sanduíche dos clientes, porque é melhor eu passar mal do que um cliente se intoxicar."

QUÊ???

Você acha que EU vou me intoxicar por causa de um fulano que eu nunca vi na vida? Todo mundo sabe que atum não se come na rua (eu aprendi isso há uns cinco meses, quando me intoxiquei e fiquei com manchas vermelhas na cara, braços e peito, e a moça da farmácia falou que eu era louca de não ter ido direto pro hospital), então experimentar atum dos outros é o cara***!!!

(Abre parênteses): Essa menina que experimenta o atum antes era muito gente fina, e agora que o chefe deu voto de confiança para ela ficar sozinha durante a tarde, ela meio que ficou se achando a dona e subiu por conta própria 0,10€ de qualquer coisa. Tipos, um dia o bar bombou de gente e o chefe foi lá ajudá-la, aí um cliente virou pra ELE e falou "Fecha a conta" ou coisa que o valha, e quando o boss marcou 1,60€ na caixa registradora, a menina do atum virou e falou “Não, você cobrou errado, não é 1,60€ a cerveja, e sim 1,70€”. Imagino que ele deva ter ficado com a cara mais de cu de todo o universo, e me parece que o estado de choque foi tanto que ele nem conseguiu falar nada, cancelou o 1,60€ e marcou 1,70€.
Cara, a sua funcionária sobe os preços do seu bar? E quando ele tava de férias então? Ela pegou a lousinha de preços e mudou tudo! Sem ele saber! E o pior é que ela cobra as coisas mais caras e não fica com a mais valia! Ela bota no caixa! Vai entender esse mundo...
(Fecha parênteses)

Mas então, a minha burrice. Basta de desvios.

Tipo, você começa a notar que está ficando burra quando já conhece a cara de mais ou menos umas 70 pessoas, e dessas, umas 30 você chama pelo nome.

Tem coisa mais estúpida que isso? O lugar que esses nomes ocupam no meu cérebro poderia muito bem ser ocupado por um poema de García Lorca, ou um trecho de um livro que eu gostei de ter lido, ou o momento exato de um pôr do sol, ou qualquer coisa hippie brega dessas que eu gosto. Mas não! Eu sei quem é o Pepe, o Hermínio, o Juanito, o Martin, o Fran, a Silvia, a Marina, a Patri, etc.

Aí tem os apelidos que a gente põe, de acordo com o que a pessoa consome. Tem a Laura café com leite e canela, o David sanduba de presunto, Francesc do café sem açúcar e o Venáncio do descafeinado de envelopinho. Quando rolam nomes iguais o esquema é o mesmo. Se meu colega de trabalho fala pra mim "O Juan veio aqui hoje" eu tenho que perguntar "Qual Juan? O Juan cerveja ou o Juan suco de laranja natural?". Aí meu companheiro responde pela bebida e eu sei de qual Juan se trata.

Um outro sintoma de que estou ficando burra é que o meu senso de humor anda um pouco alterado. Outro dia eu CHOREI de rir de não sei o quê do sanduíche de frango que eu não lembro (olha que engraçadíssimo, eu nem lembro), mas sei que quando parei de rir eu quase chorei de tristeza, porque nunca na minha vida um sanduíche de frango tinha feito com que eu perdesse as estribeiras e a noção do ridículo, e quando lágrimas escorrem dos seus olhos depois do ataque histérico de riso você pára pra rever os seus conceitos e se pergunta se está tudo bem ou se você tá ficando burra e/ou louca. E obviamente é a primeira opção.

Aí eu penso que o mundo é injusto e só porque eu nasci do outro lado do Atlântico eu sou fadada a ser garçonete até que o governo espanhol resolva que eu sou uma cidadã contribuinte com a engrenagem que gira o capital e me dê um número de Seguridad Social decente pra eu fazer o que eu bem entender. Suspiro.

Puxa vida, nada contra quem gosta de ser garçom, muito pelo contrário, se você gosta do seu trabalho, realmente existe amor, carinho e sucesso em abrir uma garrafa de vinho com toda a pompa e circunstância. Mas cara, eu sou antropóloga, sabe? No me importa! I don´t care! E acho que não tem nada de mal nisso!

E pra completar o bizarro world, eu tenho que ouvir coisas do tipo:

"Poxa, eu conheço um fulano que ganha a maior grana com isso, ele se especializou nessa coisa de limpar ossos com a escova de dentes, é quase o Indiana Jones"
"Que eu saiba, o Indiana Jones é arqueólogo, não antropólogo..."
"Ah, mas então, o que faz um antropólogo? Eu achava que era a mesma coisa!"

E digo mais: Experiência antropológica no bar é o cacete, esse povo me deixa louca do cérebro! Me comparar com o Indy?

Cara, se eu tivesse direitos europeus ilimitados eu faria uma reforma educacional. Juro que faria.

sábado, 6 de setembro de 2008

Subindo o Canigou

E daí que chamaram a gente pra subir o Canigou, uma famosa montanha do Pirineu, localizada no sul da França. Tal evento foi agraciado com o nome de "La Trobada" que significa "O Encontro" em catalão.
Explico: a coisa resume-se em juntar os catalães dos dois lados (francês e espanhol), subir o morro, cantar cantigas típicas pelo caminho, dançar a Sardana (uma dança que também é típica, tipo uma "Tarantella" com menos emoção) e acampar lá em cima, no pico.

Então Julien e eu resolvemos ir. O namo investiu uma puta grana com barraca, sleeping bag, isolante térmico, panelinha, colherzinha, garfinho, canequinha, bujãozinho e todos os inhos possíveis pro nosso conforto e rumamos pro lado de lá da fronteira.

As risadas do começo da viagem ficaram por conta do Carl, um canadense de Montreal residente em Barna, que agora mora com duas brasileiras. O camarada veio falando portunhol o caminho inteiro e inventando palavras. Tipos, na metade do caminho eu tava titubeando entre homicídio ou suicídio. No fim todos sobrevivemos.

Dormimos na casa de um amigo do Mika (amigo do Julien) e no dia seguinte rumamos pro morro. Já estávamos em pleno verão, mas naquela porra de França sempre faz frio e eu nunca estou realmente preparada pros cambios climáticos.

Quando chegamos no ponto de encontro no pé da montanha, GERAL tinha amarrado mochilas nos burros que estavam lá pra alugar. Tipos que você vai subir o morro e não vai se esforçar NADA? Que classe de aventureiro é você?

Julien e eu chegamos à conclusão de não alugar burro porra nenhuma, e sim uma mula simbólica, só pra levar os sacos de dormir, porque o pônei-mula não aguentaria nem a nossa mochila. Belezera.

Ah, esqueci de falar que o burro é o símbolo da Catalunha. Maior galera vestia camisetas com os dizeres:

BURRO CATALÀ, LA VOITURE DE DEMÀ
BURRO CATALÃO, O CARRO DE AMANHÃ

Nem vou comentar a piada pronta.

(Curiosidade: "Voiture" significa "carro" em francês e em catalão, só muda a pronunciação. Mas do lado de cá (Espanha), a palavra "carro" em catalão se traduz como "cotxe".)

Aí depois de muita enrolação começamos a subir uma estrada de cimento. No começo eu até achei normal, mas depois de uma hora de caminhada eu comecei a ficar indignada. Num era trilha o bagulho? E os insetos? Borboletas? Coelhinhos? Cachoeiras? Onde tava tudo isso?

E o frio ia aumentando...

Aí de repente mudamos pra uma estrada de terra. Menos mal, porque aí eu continuei indignada, mas não muito. Continuei subindo, enquanto o Julien dava uns tapas na bunda da mula pra ver se ela andava e parava de comer capim.

De repente um monte de gente começa a passar a cavalo. E depois com bicicletas. E depois de carro!

Perguntei pro Juls:

- Ow, mas dá pra chegar de carro até lá?

E ele:

- Dá!

Mano! Mulas somos nós que não desembolsamos 5 conto a mais pra pegar um burro decente que levasse as nossas coisas! Mah que merda!

Depois de tantas horas fizemos uma paradinha pra comer um sanduba. Pão amanhecido com queijo suado.


Esse aí atrás é o Carl canadense.

Aí um tiozão catalão saca o violão e começa a tocar uma canção (rima pobre é o cara***).

Carl canadense vira pra mim e fala:

- Nossa, cansei de escutar essa música no ano passado.

Num entendi nada da música. Eu até entendo o catalão falado em Barça, mas com sotaque francês já é pedir demais. Bateu uma saudade da minha terra, onde todo mundo fala igual.

Depois dos aplausos pra música do tiozão, botamos o pé na estrada de novo. Até lá a viagem tava menos emocionante que qualquer música do Frejat, então imagina.

Sei que o tempo começou a fechar feio. Neblina total. Vento veloz. Frio ducaraio. Mas continuamos subindo, enquanto eu pensava:

- Poxa, e eu que trouxe o biquíni pra nadar na nascente da montanha...

Útima parada antes do pico da neblina: uma casinha abandonada. O momento ideal pra dançar a Sardana.

Junta a negada toda e faz um círculo de mãos dadas. Aí o tiozão do violão começa a explicar que a Sardana espanhola é assim e a francesa é assado. Olho a expressão das pessoas e fico me perguntando se alguém tinha entendido o que o cara tinha falado. Carl canadense vira pra mim e diz:

- Eles dançaram no mesmo lugar no ano passado.

Tenho a sensação de dè ja vu.

Uma hora depois, chegamos no pico e fomos montar as barracas.

Cara, nem te conto o FRIO DEMONÍACO que fazia em cima daquela montanha. Eu tava inconformada de ter esperado o verão o ano todo e quando tenho um final de semana livre pra curtir a praia, resolvo subir a montanha pra ver neve.

Barracas montadas, decidimos ir beber uma breja no bar/chalé que tinha ali do lado. Sim, lá nos confins do Canigou existe um bar/chalé/restaurante. Aventura mil.

No meio do caminho a neblina começa a baixar mais. E mais. E mais. Olho pra frente e não consigo enxergar meu namorado. Me entra um pânico e começo a gritar:

- Julieeeeeeeeeeeeeeen! Julieeeeeeeeeeeeen! Julieeeeeeeeeeeeeen!

Sai o menino detrás da cortina de fumaça, puto com o meu escândalo. E eu fiquei mais puta por ele ter me abandonado perdida no mato e ainda ter ficado bravo.

Quando sentamos no bar, resolvi registrar a fantástica beleza do Canigou.


Adorei a vista

Cara. Tava tão frio mas tão frio que deixei a dignidade guardada na barraca e coloquei em cima de mim toda e qualquer coisa que fizesse parar o arrepio. Umas três meias (o cadarço do meu tênis nem amarrava), meia calça, calça legging, calça jeans (não fechava o botão), todas as blusas de frio que encontrei e por cima de tudo isso uma capa de chuva. Não, não tava chovendo, mas e daí? Acho chique a prevenção. Tatiana Diniz era o símbolo da feminilidade no Canigou.

Quando chegamos no bar, descobrimos que só tinha mesa do lado de fora. Meu humor começou a descer pro tornozelo.



No calor do verão europeu.


A noite caiu, a fogueira acendeu, o vinho misturou com rum Pujol, o frio piorou e antes de ter um ataque psicótico resolvi voltar pra barraca e dormir. Se o Julien não tivesse me acompanhado com larterna + sentido de direção, teria morrido congelada e solitária no meio das árvores.

Nem preciso dizer que dormi com todas as roupas dentro do sleeping, e ainda coloquei a mochila em cima de mim pra ficar mais quentinho.

Acordo no dia seguinte e vejo a galera desmontando tudo. Fico paralisada olhando. Pergunto pra um cara:

- A gente JÁ vai embora?

E o amigo diz:

- Claro! A que horas você queria ir?

Arrumamos tudo na correria e chegamos na cidade depois de várias horas. As cãimbras já davam sinal de que os próximos dias não seriam fáceis.

A única coisa que eu gostei realmente foi que na descida eu comi várias cerejas que caíam das árvores que cercavam a estrada. (Claro que a coisa mais legal sempre é comida...)

Na volta pra Barça, dentro do carro e quentinha, Carl canadense pergunta:

- E aí, gostou?
- Sim, claro!
- Ano que vem você volta?
- Errrr Carl! Claro que não!


I love Canigou